Por Silvana de Oliveira – Perita Judicial, Grafotécnica, Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense
Atendimentos a Bonecas Reborn e Outros Objetos Inanimados nos Serviços Públicos de Saúde: Reflexões Éticas, Clínicas e Jurídicas
Nos últimos anos, profissionais da saúde pública têm se deparado com situações inusitadas: pedidos de atendimento, vacinas, consultas e até registro de nascimento para bonecas do tipo reborn — réplicas hiper-realistas de bebês, criadas para fins terapêuticos, artísticos ou de entretenimento. Em paralelo, há registros de usuários solicitando acolhimento médico ou psicológico para objetos inanimados, como brinquedos, robôs ou pelúcias.
Esse fenômeno tem gerado debates éticos, jurídicos e técnicos sobre os limites do atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS), a autonomia dos usuários e a responsabilidade dos profissionais diante de manifestações que, em alguns casos, podem indicar transtornos mentais ou estados de sofrimento psíquico.
O Que São Bonecas Reborn?
As reborns são bonecas confeccionadas à mão, com características físicas extremamente próximas às de um bebê real. Elas possuem textura de pele, peso e até simulação de batimentos cardíacos ou respiração. Algumas pessoas mantêm vínculos afetivos intensos com essas bonecas, tratando-as como filhos reais, alimentando-as, trocando fraldas e levando-as para consultas pediátricas simuladas.
Casos Reais e Desafios no Atendimento
Há registros em unidades de saúde e conselhos profissionais de situações como:
- Usuários exigindo vacinação de bonecas reborn com carteirinhas fictícias;
- Pessoas idosas buscando orientação pediátrica para cuidar de suas bonecas;
- Demandas por consultas psicológicas ou psiquiátricas para “a criança”, que, na verdade, trata-se de um objeto.
Esses episódios colocam em xeque protocolos tradicionais de acolhimento, exigindo preparo técnico e sensibilidade dos profissionais da saúde para:
- Identificar possíveis quadros psiquiátricos ou neurológicos (como demência, transtorno psicótico ou luto patológico);
- Evitar atitudes preconceituosas ou constrangedoras;
- Encaminhar adequadamente o usuário para avaliação psíquica ou assistência social.
Aspectos Éticos e Psicológicos
Do ponto de vista ético, o profissional deve manter o respeito à dignidade da pessoa, mesmo quando as solicitações parecem ilógicas. Em alguns casos, o uso das bonecas reborn pode funcionar como estratégia terapêutica válida — especialmente em casos de:
- Síndrome do ninho vazio;
- Luto por perda gestacional ou neonatal;
- Demência ou Alzheimer, onde a boneca pode ativar funções cognitivas e afetivas.
No entanto, quando o vínculo com a boneca compromete a realidade ou impede o cuidado de si e dos outros, pode ser um indicativo de sofrimento mental que requer intervenção especializada.
Limites Jurídicos e Administrativos
Do ponto de vista jurídico, o SUS é voltado ao atendimento de pessoas reais, com CPF e cadastro no sistema. Objetos inanimados não têm personalidade jurídica nem direito subjetivo à saúde. No entanto, a demanda do usuário deve ser acolhida com escuta qualificada, pois muitas vezes o objeto é um símbolo ou veículo de expressão emocional profunda.
O desafio está em:
- Registrar corretamente a ocorrência no prontuário sem validar o atendimento ao objeto;
- Garantir que o profissional não cometa constrangimento ou negligência;
- Acolher a queixa do usuário real, que é quem, de fato, está em sofrimento.
Recomendações para Profissionais da Saúde
- Escuta ativa e empática: Evite julgamentos imediatos. Acolher não significa concordar com a fantasia, mas respeitar o sujeito por trás dela.
- Avaliação multiprofissional: Quando houver suspeita de sofrimento psíquico ou transtorno mental, encaminhe para avaliação com psicólogo, psiquiatra ou equipe de saúde mental.
- Registro correto: Documente no prontuário que o atendimento foi voltado ao usuário, mencionando a mediação simbólica com objeto inanimado, se necessário.
- Evitar espetacularização: Fotografar, expor ou ridicularizar esses atendimentos fere a ética profissional e pode configurar violação de direitos humanos.
- Capacitação contínua: Profissionais devem ser preparados para lidar com subjetividades complexas, especialmente em tempos de solidão, hiperconectividade e adoecimento mental crescente.
Atender usuários que projetam vínculos afetivos intensos em bonecas reborn ou objetos inanimados é um desafio real nos serviços públicos de saúde. Mais do que um problema administrativo ou uma curiosidade anedótica, essas situações nos convidam a refletir sobre o papel da escuta, da empatia e do preparo técnico na atenção psicossocial.
O cuidado humanizado passa, também, pelo reconhecimento de que, por trás do objeto, há sempre uma dor, um vazio ou uma história que merece ser ouvida.
Claro, Silvana! Aqui estão as notícias mais recentes sobre o projeto de lei que propõe proibir atendimentos a bonecas reborn e outros objetos inanimados nos serviços públicos de saúde:
Projeto de Lei em Minas Gerais
O deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG) apresentou um projeto de lei na Assembleia Legislativa de Minas Gerais que visa proibir o atendimento a bonecas do tipo “bebê reborn” e outros objetos inanimados nos serviços públicos de saúde do estado. A proposta prevê multa de até dez vezes o valor do serviço prestado, destinada ao tratamento de pessoas com transtornos mentais1.
A iniciativa surgiu após relatos de pessoas levando bonecas reborn a unidades de saúde, alegando que os “bebês” estavam doentes. Caporezzo argumenta que tais situações podem sobrecarregar o sistema de saúde e colocar em risco pacientes que realmente necessitam de atendimento23.
Outras Iniciativas no Brasil
No Rio de Janeiro, o deputado estadual Rodrigo Amorim (União) apresentou o PL 5357/2025, que propõe a criação de um programa de saúde mental para pessoas que desenvolvem vínculos afetivos com bonecas reborn. A proposta visa oferecer apoio psicológico a esses indivíduos.4
Para uma compreensão mais visual do assunto, confira o vídeo a seguir que aborda o projeto de lei e suas implicações:
PL quer PROIBIR ATENDIMENTO a BEBÊ REBORN no SUS
- InfoMoney https://www.otempo.com.br/politica/2025/5/14/projeto-de-lei-quer-proibir-atendimento-a-bebe-reborn-no-sus-em-minas-gerais?utm_source=chatgpt.com ↩︎
- InfoMoney https://www.infomoney.com.br/brasil/propostas-propoem-buscam-buscar-atendimento-no-sus-com-bebe-reborn/?utm_source=chatgpt.com ↩︎
- O Tempo https://www.otempo.com.br/politica/2025/5/14/projeto-de-lei-quer-proibir-atendimento-a-bebe-reborn-no-sus-em-minas-gerais?utm_source=chatgpt.com ↩︎
- A proposta visa oferecer apoio psicológico a esses indivíduos https://veja.abril.com.br/coluna/maquiavel/bebe-reborn-projeto-proibe-atendimento-de-boneco-em-hospitais-do-sus/?utm_source=chatgpt.com ↩︎
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