Quando o Amor é um Golpe: a História de Maria e o Estelionato Emocional Digital

Por Silvana de Oliveira  Perita Judicial, Grafotécnica, Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense

O golpe não começa com um pedido de dinheiro. Começa com atenção, carinho, palavras certas no momento errado e uma vítima no momento mais frágil da vida. Foi assim que tudo aconteceu com Maria, moradora de Florença (Firenze)1, na Itália. Mulher trabalhadora, ex-campeã de boxe, Maria levava uma vida simples e disciplinada, acordando todos os dias às quatro da manhã para trabalhar em uma empresa de limpeza. Mas, fora do ringue, Maria carregava feridas emocionais profundas deixadas por relações passadas. Estava sozinha. Vulnerável. E foi exatamente aí que o golpe encontrou espaço.

quando a fantasia se apresenta como salvação

Tudo começou com uma mensagem inesperada, enviada por um número com prefixo estrangeiro:

“Oi, minha belíssima fã, este é o meu WhatsApp privado.”

O remetente dizia ser Rosario Miraggio, cantor napolitano famoso, com carreira internacional consolidada. A princípio, Maria desconfiou. Bloqueou o número. Parecia absurdo que um artista conhecido perdesse tempo com ela.

Mas a curiosidade venceu. Ela desbloqueou. E esse foi o ponto de virada.

A partir daí, o contato se tornou diário. Mensagens a qualquer hora, elogios constantes, declarações intensas. O falso cantor parecia sempre disponível, sempre atento, sempre apaixonado. Em pouco tempo, a conversa evoluiu para promessas de amor eterno, planos de vida em comum e juras de fidelidade.

Maria acreditou. Não porque fosse ingênua, mas porque estava emocionalmente exposta e o golpista sabia exatamente como explorar isso.

quando o amor começa a cobrar

Depois de conquistar a confiança e o afeto de Maria, veio a segunda fase do golpe: O DINHEIRO.

As desculpas eram elaboradas e dramáticas. Um processo judicial com uma suposta ex-namorada que teria falsificado documentos pré-nupciais. Contas bancárias misteriosamente bloqueadas. Advogados caros. Prazos urgentes.

“Preciso de 1.800 euros para comparecer ao tribunal. Se eu não pagar agora, estou arruinado.”2

Maria começou a ajudar. Primeiro pequenas quantias. Depois, valores cada vez maiores. Todo mês, assim que recebia o salário, transferia praticamente tudo. Chegou ao ponto de não ter dinheiro sequer para o transporte público e tirar férias forçadas porque não conseguia mais se manter.

Enquanto isso, o golpista aumentava a pressão emocional:

“Amor da minha vida, falta pouco. Depois disso, vamos finalmente ficar juntos.”

um dos sinais mais perigosos

Com o tempo, Maria se afastou da família, das irmãs, dos amigos. Preferia ficar em casa, falando ao telefone com o suposto namorado. Qualquer tentativa de questionamento era vista como ataque. Para ela, a família “não entendia” o amor que vivia.

Esse isolamento é uma marca clássica do estelionato emocional: quanto menos vozes externas, mais controle o golpista exerce.

Mesmo diante dos alertas da mãe, Maria insistia:

“Não é um golpe. Ele me ama. Eu vou refazer minha vida com ele.”

O confronto com a realidade

Desesperada, a família pediu ajuda. A produção de um programa jornalístico entrou em contato com o verdadeiro Rosario Miraggio, que aceitou participar imediatamente. Ele saiu de Nápoles e foi até Florença para encontrar Maria pessoalmente.

Quando ela ficou frente a frente com o homem que acreditava amar há meses, o choque foi profundo. Ainda assim, a negação persistia. O golpe não se sustenta apenas com mentiras externas ele cria raízes internas.

O momento decisivo veio quando, com o verdadeiro Rosario ao seu lado, Maria recebeu uma nova mensagem no celular:

“Amor, você está mandando os 2.000 agora?”

Era impossível negar. O homem real estava ali. O telefone dele estava sobre a mesa. A mensagem vinha de outro lugar. Ali, a fantasia começou a ruir.

O golpe nigeriano e o estelionato emocional digital

O caso de Maria não é isolado. Trata-se de um modelo conhecido internacionalmente, muitas vezes chamado de golpe nigeriano ou romance scam. O método é sempre parecido:

  • Perfis falsos, geralmente se passando por pessoas famosas;
  • Construção rápida de vínculo emocional;
  • Isolamento da vítima;
  • Pedidos de dinheiro por meios difíceis de rastrear (criptomoedas, cartões pré-pagos, contas de terceiros);
  • Narrativas de urgência e sofrimento para impedir questionamentos.

Por trás dessas mensagens, muitas vezes, existem organizações criminosas estruturadas, operando de outros países, com divisão de funções e scripts psicológicos bem definidos.

O fim do golpe — e o começo da reconstrução

Ao final, Maria aceitou bloquear e denunciar o golpista. A mãe chorou. Não apenas pelo dinheiro perdido, mas pelo alívio de recuperar a filha.

O verdadeiro Rosario Miraggio3, reservou para ela um lugar na primeira fila de seu show e dedicou uma canção. Um fechamento humano para uma história dolorosa.

Mas a recuperação verdadeira começa depois: reconstruir a autoestima, resgatar vínculos, entender que cair em um golpe não é sinal de fraqueza é sinal de humanidade.

Golpes como esse não exploram a ignorância, mas a solidão. Não atacam contas bancárias primeiro, atacam emoções. Falar sobre estelionato emocional digital é uma forma de prevenção. É lembrar que amor verdadeiro não pede dinheiro, não exige isolamento e nunca cobra provas financeiras. E, sobretudo, é lembrar que pedir ajuda não é perder a luta é mudar de estratégia.

  1. Caso real: https://mediasetinfinity.mediaset.it/video/leiene/ruggeri-pensava-fosse-amore-invece_F314344901001C15 ↩︎
  2. Fonte: https://www.instagram.com/reel/DT3VmXODGgd/?igsh=Z3hocTlwc3VleGZv ↩︎
  3. Artista – Rosario Miraggio: https://www.instagram.com/rosariomiraggioiam/ ↩︎

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