Por Silvana de Oliveira – Mediadora e Arbitro, Perita Judicial, Grafotécnica, Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense.

Em junho de 1994, os assassinatos de Nicole Brown Simpson e Ron Goldman chocaram Los Angeles e rapidamente se transformaram em um dos casos criminais mais acompanhados da história recente dos Estados Unidos. O principal suspeito era O. J. Simpson, ex-astro da NFL.
Dias após o crime, a imagem da perseguição policial a uma Ford Bronco branca, transmitida ao vivo pela televisão, marcou o início de um julgamento que mobilizaria o país e dividiria opiniões.
A promotoria apresentou um conjunto de provas considerado consistente: vestígios de sangue das vítimas na cena do crime, sangue de Simpson no local, material biológico no veículo e duas luvas que poderiam ligar o suspeito ao assassinato. A estratégia da acusação se apoiava em análises de DNA e em laudos periciais, além do histórico de violência doméstica envolvendo Nicole Brown Simpson.
No entanto, a defesa optou por seguir outro caminho. Em vez de concentrar esforços em demonstrar uma inocência plena, passou a questionar a forma como as evidências haviam sido coletadas, armazenadas e transportadas. Erros técnicos, ainda que pontuais, ganharam destaque no tribunal. A discussão deixou de ser apenas sobre o que as provas indicavam e passou a envolver se os procedimentos adotados pela polícia eram suficientemente confiáveis.
Durante o julgamento, o detetive Mark Fuhrman teve sua credibilidade questionada após a divulgação de declarações racistas feitas no passado. O episódio ampliou o debate público sobre racismo e práticas policiais, deslocando parte da atenção do crime em si para o contexto institucional da investigação.
Foi nesse ambiente que ocorreu um dos momentos mais emblemáticos do processo: diante do júri, Simpson experimentou a luva encontrada na cena do crime. A peça aparentou não servir adequadamente, e a cena teve forte repercussão entre os jurados e na opinião pública. O advogado de defesa Johnnie Cochran reforçou o argumento ao resumir a situação com a frase que se tornaria amplamente conhecida: “If it doesn’t fit, you must acquit” (se a luva não cabe, devem absolver).

O Sr. Simpson está indicando que os dedos dele não estão até as luvas, meritíssimo. Sr. Simpson disse ao júri que as luvas são muito pequenas.1
Em outubro de 1995, após menos de quatro horas de deliberação, o júri declarou Simpson inocente no processo criminal. Anos depois, em um julgamento civil movido pelas famílias das vítimas, o ex-jogador foi considerado responsável pelas mortes resultado associado a um padrão de prova distinto, menos rigoroso do que o exigido na esfera penal.
O desfecho do julgamento permanece, até hoje, como um dos exemplos mais didáticos de que processos judiciais não são decididos apenas com base na existência de provas, mas sobretudo na confiança que se pode ter sobre elas. A desconstrução da credibilidade dos métodos investigativos e não necessariamente das evidências em si foi determinante para a formação da dúvida razoável que sustentou a absolvição na esfera criminal.
Nesse contexto, ganha relevância um elemento que, à época, ainda não possuía o grau de institucionalização e reconhecimento técnico que tem hoje: a investigação conduzida pela própria defesa. Para o advogado Dr. Angelo Gramlich2, a Investigação Defensiva e Corporativa representa justamente esse mecanismo de equilíbrio dentro do sistema de justiça. Ao permitir que a defesa produza seus próprios elementos informativos, verifique procedimentos adotados por órgãos investigativos e identifique eventuais falhas na cadeia de custódia, essa prática amplia o contraditório e fortalece a paridade de armas no processo penal e em disputas corporativas complexas.
Mais do que uma estratégia, trata-se de instrumento essencial para assegurar que decisões judiciais não se apoiem em provas tecnicamente frágeis ou em narrativas construídas sem o devido escrutínio metodológico reafirmando o papel da defesa na busca por um julgamento verdadeiramente justo.
- Fonte: https://www.romper.com/p/video-of-oj-simpson-trying-on-the-gloves-at-his-1995-trial-is-tense-fascinating-7211?utm_source=chatgpt.com ↩︎
- Fonte: https://www.instagram.com/p/DU2yeP6Fq6u/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA== ↩︎
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