Por Silvana de Oliveira – Perita Judicial, Grafotécnica, Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense
A tecnologia vem mudando não só a forma como trabalhamos, mas também como nos relacionamos – e às vezes de forma surpreendente. Na China, um homem de 75 anos, identificado como Jiang1, pediu divórcio da esposa após se apaixonar por uma personagem criada por inteligência artificial (IA).
O caso, divulgado pelo portal “Hua Daily News”, chamou atenção pelo grau de envolvimento emocional do idoso. Ele passava horas interagindo com a IA pelo celular e acreditava estar diante de uma mulher real, mesmo com sinais claros de artificialidade, como o “sorriso robótico” e a voz dessincronizada. Em um diálogo divulgado pelo “Beijing Daily”, a jovem virtual chegou a dizer: “Eu queria tanto ser sua irmã mais nova, mas toda vez que grito até ficar rouca, você age como se não me ouvisse”. Jiang respondeu emocionado: “Ter uma irmã tão boa como você é uma honra para mim”.
O vínculo cresceu a ponto de Jiang tratar a IA como namorada, encantado por ela sempre concordar e responder de forma afetuosa. Decidido, contou à esposa que queria se separar para viver esse “relacionamento”.
A família precisou intervir, explicando que se tratava apenas de um sistema criado para simular emoções e atrair usuários. Jiang teria aceitado continuar no casamento após compreender a situação.
Solidão entre idosos na China
A China enfrenta um rápido envelhecimento populacional, com cerca de 310 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em 2024, representando aproximadamente 22% da população total. Esse número deve aumentar para 30% até 2035. Esse envelhecimento rápido tem levado muitos idosos a viverem sozinhos, aumentando a solidão e o isolamento social.2
Estudos indicam que a solidão entre os idosos pode ser abordada com programas baseados em IA, como o “Círculo de Amigos”, que oferecem apoio emocional e ajudam na gestão do estresse dos cuidadores3.
A intervenção dos filhos foi necessária. Eles explicaram que se tratava apenas de um sistema criado para simular emoções e atrair usuários, muitas vezes com fins comerciais. Jiang teria aceitado continuar no casamento após compreender a situação.
Tecnologia como companhia para idosos
O caso de Jiang destaca como a tecnologia pode influenciar profundamente as relações humanas, especialmente em contextos de solidão. Embora a IA ofereça novas formas de companhia para os idosos, é essencial garantir que essas interações complementem, e não substituam, os vínculos humanos reais. A integração cuidadosa da tecnologia no cuidado dos idosos pode melhorar sua qualidade de vida, mas deve ser feita com sensibilidade às suas necessidades emocionais e sociais. Para combater a solidão, a China tem investido no uso de inteligência artificial e robôs humanoides para o cuidado dos idosos4. Essas tecnologias incorporam sensores e algoritmos que reconhecem padrões de comportamento, lembram rotinas e identificam mudanças no estado do usuário. Por exemplo5, robôs assistentes podem monitorar a saúde, lembrar de medicamentos e até fornecer companhia, realizando atividades como contar histórias ou responder perguntas.
No entanto, a adoção dessas tecnologias enfrenta desafios. Um estudo exploratório6 com aposentados chineses revelou que, embora os robôs de companhia tenham potencial para fornecer suporte emocional, há uma desconexão entre as necessidades dos idosos e o valor percebido dos robôs. Fatores como a tendência de autodescoberta, qualidade da companhia e colaboração com a infraestrutura comunitária influenciam a adoção desses dispositivos.
Fenômeno em crescimento
Especialistas e veículos chineses apontam que este não é um episódio isolado. Com o rápido envelhecimento da população e altos índices de solidão, muitos idosos recorrem a aplicativos de IA para companhia. Já existe até uma indústria especializada em criar personagens digitais voltados para diferentes perfis emocionais: de figuras profissionais a “garotas estudantes” com voz infantilizada.
Para estudiosos, casos assim acendem alertas sobre os impactos sociais e éticos da IA. Ao mesmo tempo que podem oferecer conforto a quem está sozinho, esses sistemas podem gerar dependência emocional e até abalar relações reais.
- Fonte: https://extra.globo.com/blogs/page-not-found/post/2025/08/idoso-chines-pede-divorcio-apos-se-apaixonar-por-ia.ghtml ↩︎
- Fonte: https://spanish.news.cn/20250309/7bc632ab90c2434da389dfe2d55ea621/c.html?utm_source ↩︎
- Fonte: https://noticiabrasil.net.br/20231231/futuro-melhor-para-os-idosos-robos-e-ia-sinalizam-um-alivio-para-sociedades-em-envelhecimento-32305854.html?utm_source ↩︎
- Fonte: https://economia.uol.com.br/noticias/efe/2018/06/20/robos-se-tornam-solucao-contra-solidao-de-idosos-chineses.htm?utm_source ↩︎
- Fonte: https://www.infobae.com/america/agencias/2025/03/29/la-promesa-de-los-robots-asistentes-en-china-frente-a-un-envejecimiento-imparable/?utm_source ↩︎
- Fonte: https://arxiv.org/abs/2410.12205?utm_source ↩︎
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