Teoria da Perda de uma Chance: Como as Provas Digitais Podem Virar o Jogo

Por Silvana de Oliveira

A Teoria da Perda de uma Chance tem ganhado destaque no cenário jurídico brasileiro como uma importante ferramenta para garantir justiça em situações em que uma oportunidade real e legítima foi frustrada por ação ou omissão de terceiros. E, no mundo atual, em que cada vez mais situações ocorrem no ambiente digital, as provas digitais têm se mostrado essenciais para sustentar alegações e construir o nexo entre o erro e a perda sofrida.

O que é a Teoria da Perda de uma Chance?

Essa teoria busca a reparação de danos quando alguém perde a possibilidade real de obter um benefício ou de evitar um prejuízo por culpa de outrem. É comum em ações contra:

  • Médicos que deixam de oferecer um tratamento adequado,
  • Advogados que perdem prazos ou conduzem mal um processo,
  • Concursos e seleções com falhas,
  • Empresas que descumprem obrigações contratuais e causam a perda de uma oportunidade de negócio.

Ao contrário dos lucros cessantes, que exigem a certeza do resultado perdido, a perda de uma chance trabalha com a probabilidade: não se discute a obtenção certa do benefício, mas sim a existência de uma chance razoável e concreta de consegui-lo.

O Papel das Provas Digitais

Em um ambiente cada vez mais digital, as evidências eletrônicas são fundamentais para demonstrar:

  • A existência da chance perdida (ex.: e-mails com propostas, convites para processos seletivos, conversas em redes sociais, protocolos digitais, agendamentos etc.),
  • A conduta omissiva ou comissiva do responsável (ex.: falhas em sistemas, ausência de resposta, mensagens de orientação errada),
  • O nexo de causalidade entre a conduta e a frustração da oportunidade.

As provas digitais podem incluir:

  • Capturas de tela,
  • E-mails corporativos,
  • Registros de acesso e logs de sistemas,
  • Mensagens em aplicativos como WhatsApp, Telegram ou Slack,
  • Metadados de arquivos, que mostram alterações, autoria e temporalidade,
  • Contratos eletrônicos e registros em blockchain, que ajudam a comprovar existência e integridade de documentos.

Essas provas, porém, devem ser coletadas e preservadas de forma técnica e segura, preferencialmente com auxílio de profissionais especializados em perícia digital ou serviços de coleta forense, garantindo a autenticidade e a integridade dos dados.

Aplicações Práticas

Veja alguns exemplos em que a perda de uma chance pode ser sustentada com provas digitais:

  1. Erro médico por telemedicina: paciente não recebe orientação adequada por mensagem e perde a chance de tratamento precoce.
  2. Falha de advogado digital: perda de prazo judicial por má gestão do sistema eletrônico de peticionamento.
  3. Negócio frustrado: empresa envia proposta por e-mail, mas o destinatário alega não ter recebido; logs e registros comprovam falha no servidor ou manipulação.
  4. Concursos e seleções online: candidato é prejudicado por instabilidade da plataforma, perdendo a chance de completar a prova.

A Teoria da Perda de uma Chance é um instrumento importante de reparação de danos, especialmente em tempos em que oportunidades surgem e desaparecem em ambientes digitais. Neste contexto, a prova digital torna-se protagonista, exigindo atenção especial quanto à sua coleta, preservação e apresentação em juízo.

Por isso, ao suspeitar que uma chance foi perdida injustamente, é essencial buscar orientação jurídica e, sempre que possível, preservar as evidências eletrônicas com suporte técnico especializado. Afinal, em tempos digitais, quem prova, vence.