Música, Poesia e Perícia Forense: O Lado Poético da Investigação

Por Silvana de Oliveira  Perita Judicial, Grafotécnica, Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense

A perícia forense é tradicionalmente vista como uma atividade técnica, meticulosa e objetiva, focada na análise de evidências, coleta de dados e elaboração de laudos precisos. No entanto, assim como a música e a poesia, a perícia também possui um lado sensível e criativo, que muitas vezes passa despercebido: o lado poético da investigação.

O Ritmo da Análise

Na música, cada nota tem um tempo, um ritmo que deve ser seguido para criar harmonia. Na perícia forense, cada evidência, cada detalhe encontrado, também segue um “ritmo”: a sequência correta de coleta, análise, verificação e interpretação. Um perito experiente sabe que pular etapas ou desconsiderar pequenas nuances pode comprometer o resultado, assim como uma nota fora de tom pode quebrar a melodia de uma composição.

A Poesia nos Detalhes

A poesia nos ensina a perceber o que muitas vezes está escondido nas entrelinhas. Na perícia, a atenção aos detalhes é essencial: a forma de um documento, a sutileza de uma assinatura, o padrão de metadados digitais. Cada detalhe é uma “palavra” no poema da investigação, e a interpretação correta pode revelar uma narrativa que estava oculta aos olhos de quem apenas observa superficialmente.

Criatividade com Disciplina

Embora a perícia seja baseada em ciência e normas técnicas, ela exige criatividade estruturada. Assim como um poeta organiza versos para transmitir emoção, o perito organiza informações, confronta hipóteses e constrói uma narrativa que seja técnica, coerente e persuasiva. Essa abordagem permite que laudos não apenas descrevam fatos, mas contem uma história com sentido, ajudando juízes, advogados e demais partes a compreenderem a verdade.

Harmonia entre Técnica e Sensibilidade

O lado poético da perícia não diminui sua objetividade; pelo contrário, ele potencializa a capacidade do perito de enxergar padrões, conexões e contradições que poderiam passar despercebidas. Assim como uma música bem composta desperta emoções, um laudo bem elaborado transmite confiança, clareza e compreensão. Há beleza na precisão, assim como há precisão na beleza.

A perícia forense é um campo que une ciência e sensibilidade. Assim como a música e a poesia, ela exige atenção, ritmo, interpretação e sensibilidade estética — mesmo dentro de parâmetros rigorosamente técnicos. Reconhecer o lado poético da perícia é valorizar a arte de investigar, analisar e narrar a verdade, revelando que a ciência e a criatividade caminham juntas no universo da justiça.

Entre Evidências e Versos

No silêncio frio da cena,
onde a verdade se esconde,
cada detalhe é uma nota
que o perito responde.

Papéis, digitais vestígios,
assinaturas que falam baixinho,
como versos escondidos
no compasso do caminho.

O laudo é uma melodia,
ritmo de ciência e olhar atento,
cada prova é uma palavra,
cada dado, sentimento.

Há poesia no rigor,
beleza na precisão,
como música que revela
a alma em cada canção.

Investigar é escutar
o sussurro que a prova traz,
decifrar a narrativa oculta
e revelar a justiça em paz.