Por Silvana de Oliveira – Perita Judicial, Grafotécnica, Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense
Condomínio no Rio convoca assembleia para discutir pagamento de taxa ao crime organizado
Um condomínio localizado no bairro de Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro, está no centro de uma polêmica após convocar uma reunião extraordinária de moradores com um único item na pauta: aprovar o pagamento mensal de R$ 1.800,00 à chamada “Comunidade do Morro do São José” — denominação comumente utilizada para se referir a uma organização criminosa que atua na área.

O ofício de convocação, obtido pela BandNews FM, deixa explícita a finalidade da assembleia: deliberar sobre o pagamento da taxa já a partir de maio deste ano. O caso escancara a pressão que moradores e administradoras sofrem em regiões dominadas por facções criminosas e reacende o debate sobre segurança pública, omissão do Estado e a normalização de práticas ilegais em contextos de vulnerabilidade.
“Poder, não pode. Mas vai fazer o quê?”
A reportagem da emissora conversou por telefone com uma funcionária de uma empresa que presta serviços ao condomínio. Sem saber que estava sendo gravada, ela confirmou que o valor exigido seria direcionado diretamente ao grupo criminoso. Sua fala revela o dilema enfrentado por quem administra ou vive em áreas sob o domínio do tráfico:
“É, vai ter que fazer uma assembleia porque o pessoal do lado, do morro, está cobrando uma taxa. Poder não pode, né? Mas vai fazer o quê? Por isso que vai ter essa assembleia, para discutir.”
A funcionária ainda relatou um episódio de represália sofrido por outro condomínio da região, que teria se recusado a efetuar o pagamento. Segundo ela, os criminosos reagiram com violência:
“Aí já era, só Jesus na causa, porque… Aconteceu aqui em um outro endereço, disseram que não queriam pagar e eles foram lá e assaltaram, fizeram uma bagunça.”
Extorsão ou “taxa de segurança”?
A prática, embora disfarçada sob o eufemismo de “taxa de segurança”, é, juridicamente, extorsão — crime previsto no Código Penal Brasileiro. O pagamento de valores a facções ou milícias em troca de proteção não é apenas ilegal, mas também perigoso, pois fortalece o poder dessas organizações e aprofunda a sensação de abandono institucional.
Ainda assim, o contexto de medo e ausência de proteção estatal transforma a escolha entre pagar ou não em uma questão de sobrevivência para muitos moradores e gestores condominiais. O caso do condomínio em Madureira evidencia uma realidade comum em diversas comunidades brasileiras, onde o poder paralelo se impõe com força suficiente para ditar regras e cobrar tributos — prática típica de Estados paralelos.
Esse episódio revela uma falência múltipla: do Estado, que não garante segurança; do sistema de justiça, que pouco chega a essas áreas; e da sociedade, que, muitas vezes, é obrigada a se curvar à lógica do crime para manter a própria integridade física.
Cabe agora às autoridades investigar o caso e, mais do que punir moradores coagidos, identificar e responsabilizar os verdadeiros autores da extorsão. Sem ações firmes e estruturadas, o risco é que práticas como essa se tornem rotina — e passem a ser vistas como uma parte inevitável da vida urbana em regiões vulneráveis.
Condomínio em Madureira convoca reunião para aprovar pagamento de taxa ao crime organizado
No ofício, ao qual a reportagem da BandNews FM teve acesso nesta terça-feira (6), o único assunto na ordem do dia é a aprovação de um pagamento mensal no valor de R$1800,00 para a “Comunidade do Morro do São José”, já a partir do mês de maio.
A reportagem conversou com uma funcionária de uma empresa que representa o condomínio. Ela não sabia que estava sendo gravada e teve a voz distorcida e a identidade preservada.
Na ligação, a mulher confirma que o pagamento vai ser destinado à organização criminosa que atua na região.
É, vai ter que fazer uma assembleia porque o pessoal do lado, do morro, está cobrando uma taxa. Poder não pode, ‘né’? Mas vai fazer o quê? Por isso que vai ter essa assembleia, para discutir.
Ao ser perguntada sobre o que aconteceria caso o pagamento não fosse aprovado, a funcionária cita uma ocorrência recente em um outro endereço, que teria sido alvo dos criminosos após o não pagamento da quantia estabelecida.
Aí já era, só Jesus na causa, porque… Aconteceu aqui em um outro endereço, disseram que não queriam pagar e eles foram lá e assaltaram, fizeram uma bagunça.
A BandNews FM tenta contato com o síndico do condomínio.
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