A vida em condomínio é regida por diversas normas que garantem a boa convivência, a organização e a segurança jurídica. Mas afinal, quando há conflito entre regras, qual norma deve prevalecer? Para responder a essa pergunta, é fundamental compreender o conceito da Pirâmide de Kelsen e sua aplicação no universo condominial.
O Que é a Pirâmide de Kelsen?
Idealizada pelo jurista austríaco Hans Kelsen, essa pirâmide representa a hierarquia das normas jurídicas. Funciona como uma estrutura em camadas, onde cada norma inferior deve estar em conformidade com a superior. No topo está a Constituição Federal, e na base, as normas mais específicas, como o regimento interno de um condomínio.
Aplicar esse modelo ajuda a entender quem manda em quem, ou seja, qual norma deve prevalecer em caso de conflito.
Como Funciona Essa Hierarquia no Condomínio?
Vamos descer a pirâmide do topo à base e entender o papel de cada norma:
Constituição Federal
É a lei máxima do país e nenhuma outra norma pode contrariá-la. No contexto condominial, a Constituição protege direitos como:
- Direito à propriedade;
- Liberdade de expressão e de ir e vir;
- Direito à privacidade e à dignidade da pessoa humana.
Por exemplo, se uma regra condominial proibir animais de estimação em unidades privativas, ela poderá ser considerada inconstitucional, pois interfere no direito de propriedade.
Código Civil Brasileiro
O Código Civil (arts. 1.331 a 1.358) trata especificamente das normas sobre condomínio edilício, incluindo:
- Direitos e deveres dos condôminos;
- Regras para convocação de assembleias;
- Quóruns necessários para deliberações;
- Sanções para inadimplência e condutas antissociais;
- Função e responsabilidades do síndico.
O Código deve respeitar a Constituição, e todas as normas condominiais precisam respeitar o que está disposto nele.
Convenção Condominial
É o “estatuto” do condomínio, aprovado por no mínimo 2/3 dos condôminos e registrado em cartório. Define regras como:
- Destinação das unidades (residencial, comercial, mista);
- Forma de rateio de despesas;
- Multas e penalidades específicas;
- Eleição de síndico e conselhos.
A convenção não pode contrariar o Código Civil e muito menos a Constituição. Se o fizer, será considerada inválida nos pontos conflitantes.
Regimento Interno
Trata de aspectos do cotidiano e da convivência, como:
- Uso de áreas comuns;
- Horários de silêncio;
- Circulação de animais e visitantes;
- Reformas e mudanças.
Ele deve respeitar a convenção, o Código Civil e a Constituição. Costuma ser aprovado por maioria simples em assembleia.
Deliberações de Assembleias
As decisões tomadas em assembleia são importantes e vinculantes, mas não podem contrariar as normas superiores. É comum que assembleias decidam sobre:
- Obras e manutenções;
- Aplicação de multas;
- Orçamento e previsão orçamentária;
- Contratação de funcionários e prestadores.
Decisões que contrariem a convenção, o regimento, o Código Civil ou a Constituição são passíveis de anulação judicial.
Por Que Compreender Essa Hierarquia É Essencial?
Porque evita abusos, decisões ilegais e conflitos desnecessários. Um síndico bem-informado e condôminos conscientes conseguem:
- Garantir segurança jurídica ao condomínio;
- Prevenir disputas judiciais;
- Manter o equilíbrio entre o coletivo e o individual.

A Pirâmide de Kelsen nos ensina que não basta aprovar uma regra em assembleia para que ela tenha validade. É preciso que ela respeite toda a hierarquia do ordenamento jurídico.
Entender quem manda em quem no condomínio é o primeiro passo para uma gestão eficiente, justa e legal. Afinal, viver em comunidade é também um exercício de cidadania e respeito às regras – desde que estas estejam em conformidade com a lei.
Vimos que você gostou e quer compartilhar. Sem problemas, desde que cite o link da página. Lei de Direitos Autorais, (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei
