Por Silvana de Oliveira – Vice-presidente da Just Arbitration®| Mediadora | Arbitro | Perita Forense | Agente da Propriedade Industrial (API) , Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense.

A recente operação da Polícia Federal autorizada pelo Supremo Tribunal Federal contra um perito criminal federal acusado de vazar informações sigilosas da Operação Compliance Zero1 reacende um debate delicado, mas extremamente necessário: até onde vai a responsabilidade técnica, ética e funcional dos profissionais que atuam na custódia de provas e informações sensíveis dentro do sistema de persecução penal?
O caso envolve a investigação sobre supostas fraudes financeiras bilionárias ligadas ao Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso em Brasília sob acusação de liderar um esquema que, segundo a Polícia Federal, pode alcançar cifras superiores a R$ 12 bilhões.
Segundo informações divulgadas pelo STF, o ministro André Mendonça autorizou medidas cautelares contra o investigado, incluindo mandados de busca e apreensão e a suspensão do exercício da função pública. A suspeita é de que o perito teria compartilhado informações sigilosas obtidas durante a análise de materiais apreendidos na investigação.
O episódio ultrapassa o simples debate sobre vazamento de dados. Ele toca diretamente em pilares fundamentais da atividade pericial: cadeia de custódia, integridade informacional, sigilo funcional e confiabilidade institucional.
O Perito Não É Apenas um Técnico
No imaginário popular, o perito costuma ser visto apenas como alguém que “analisa provas”. Na prática, sua função é muito mais sensível. O perito criminal atua como um guardião técnico da verdade processual.
Em investigações financeiras, digitais e corporativas, o acesso a documentos internos, registros bancários, comunicações privadas, dispositivos eletrônicos e metadados coloca esses profissionais em contato com informações capazes de impactar mercados, reputações, operações empresariais e até decisões judiciais de grande repercussão.
Por isso, o dever de sigilo não é mero formalismo administrativo. Trata-se de obrigação funcional essencial à legitimidade da investigação. Quando um agente estatal rompe esse dever, não há apenas possível infração disciplinar ou criminal. Há um abalo na credibilidade da própria prova.
Vazamentos e o Risco de Contaminação Processual
Em operações de alta complexidade, vazamentos seletivos podem produzir efeitos extremamente graves:
- destruição de provas
- combinação de versões entre investigados
- interferência na coleta probatória
- manipulação de narrativas públicas
- pressão midiática sobre órgãos investigativos
- violação da presunção de inocência
- nulidades processuais futuras
No ambiente digital contemporâneo, uma informação vazada ganha velocidade instantânea e, muitas vezes, irreversível.
Em casos financeiros, especialmente envolvendo instituições bancárias, um simples trecho de relatório técnico divulgado prematuramente pode gerar impactos econômicos relevantes, afetando investidores, correntistas, mercado e estabilidade institucional.
O Papel da Cadeia de Custódia Informacional
Muito se fala em cadeia de custódia de provas físicas e digitais, mas pouco se discute a chamada cadeia de custódia informacional. Não basta preservar a integridade do arquivo, do celular apreendido ou do documento periciado. É necessário também controlar quem acessa, manipula, compartilha e registra informações extraídas desses materiais.
Hoje, investigações modernas exigem rastreabilidade completa:
- logs de acesso
- controle de usuários
- auditoria de sistemas
- registro de exportações de dados
- autenticação de movimentações
- preservação de metadados
- segregação de ambientes sensíveis
Sem isso, o risco de vazamentos internos cresce exponencialmente.
E o mais grave: muitas vezes o problema não está em hackers externos, mas no fator humano dentro das próprias instituições.
A Responsabilidade Ética na Perícia Digital e Financeira
O caso também lança luz sobre um tema cada vez mais relevante: ética pericial em ambientes digitais. Peritos têm acesso privilegiado a informações estratégicas. Isso exige não apenas conhecimento técnico, mas maturidade institucional e compreensão do impacto social de suas ações.
Em tempos de investigações amplamente midiáticas, cresce o risco da espetacularização da prova. A divulgação informal de trechos de laudos, conversas extraídas de dispositivos, documentos bancários ou relatórios técnicos pode transformar a atividade pericial em instrumento de influência pública, desviando completamente sua finalidade original.
A perícia existe para produzir verdade técnica para o processo, não para alimentar disputas narrativas externas.
O Desafio da Segurança Interna nas Instituições
O episódio envolvendo a investigação da Operação Compliance Zero demonstra que segurança institucional não depende apenas de tecnologia avançada. Muitas organizações investem milhões em sistemas antifraude, criptografia e monitoramento externo, mas negligenciam controles internos de acesso e governança de informações sensíveis.
A proteção de dados sigilosos exige:
- protocolos rígidos
- monitoramento contínuo
- responsabilização funcional
- compliance interno efetivo
- auditoria independente
- cultura institucional de proteção informacional
Sem isso, qualquer estrutura se torna vulnerável.
O caso do perito investigado pela Polícia Federal não representa apenas um episódio isolado dentro de uma investigação de grande repercussão financeira. Ele evidencia uma fragilidade estrutural que desafia instituições públicas e privadas: a proteção da confiança.
Em investigações modernas, informação é poder. E quem tem acesso técnico privilegiado a ela carrega uma responsabilidade proporcionalmente maior. A credibilidade da perícia criminal depende não apenas da qualidade técnica dos exames realizados, mas também da absoluta confiança de que os dados analisados permanecerão íntegros, rastreáveis e protegidos contra usos indevidos.
Quando o sigilo funcional é rompido, não é apenas uma informação que vaza.
É parte da própria confiança no sistema de Justiça.
- Caso Master: PF faz operação contra perito acusado de vazar dados sigilosos sobre investigação https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/05/19/compliance-zero-pf-faz-operacao-contra-perito-acusado-de-vazar-dados-sigilosos-da-investigacao.ghtml ↩︎
Vimos que você gostou e quer compartilhar. Sem problemas, desde que cite o link da página. Lei de Direitos Autorais, (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei
