Extrações do Cellebrite revelam novos questionamentos e Coronel Jairo cobra revisão no caso Henry

Por Silvana de Oliveira – Vice-presidente da Just Arbitration®| Mediadora | Arbitro | Perita Forense | Agente da Propriedade Industrial (API) , Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense.

As recentes extrações de dados realizadas por meio da tecnologia Cellebrite reacenderam debates sobre o processo judicial envolvendo a morte de Henry Borel. Segundo a defesa e apoiadores do réu, o material trouxe à tona informações até então negligenciadas, levantando novos questionamentos sobre a condução da investigação, a integridade da prova técnica e a construção da narrativa que sustenta a acusação.

Em manifestação pública, o Coronel Jairo afirmou que as novas evidências reforçam a necessidade de uma revisão ampla do caso antes da realização do julgamento pelo Tribunal do Júri.

“A gente não pode ficar acuado quando dizem que não queremos o júri. Claro que queremos. O júri é o local em que poderemos definir as coisas. O problema é que esse processo está cercado de narrativas muito mentirosas.”

Segundo ele, a defesa não busca impedir o julgamento, mas garantir que ele aconteça com base em uma análise completa, técnica e imparcial dos fatos.

Questionamentos sobre a investigação inicial

Um dos principais pontos levantados diz respeito à condução inicial da investigação. Para Coronel Jairo, o caso deveria ter sido apurado pela Delegacia de Homicídios, o que, segundo ele, não ocorreu sem que houvesse uma explicação convincente.

“Esse processo tinha que ser apurado pela Delegacia de Homicídios, e até hoje ninguém explicou por que isso não aconteceu.”

Outro aspecto destacado envolve a condição em que Henry foi levado ao hospital.

“Leniel ficou com o garoto por 48 horas e depois o entregou vomitado, ainda vomitando.”

Ao mesmo tempo, a defesa sustenta que a criança teria chegado ao hospital com sinais vitais e que algumas das lesões observadas poderiam ter sido provocadas durante as tentativas de reanimação.

Divergências sobre a origem das lesões

As extrações do Cellebrite também reacenderam discussões sobre a origem dos ferimentos que levaram à morte de Henry.

Coronel Jairo menciona declarações atribuídas à mãe da criança, Monique Medeiros, nas quais ela relata que o menino teria mencionado uma queda.

“Meu filho diz que ele tomou um tombo.”

Segundo ele, essa informação sugere a possibilidade de um acidente anterior que não teria sido suficientemente investigado.

“O garoto sofreu algum acidente? A mãe fala em acidente, menciona escolinha de futebol, diz que ele poderia ter caído, levado uma bolada. Isso precisa ser apurado.”

No entanto, o médico legista do Instituto Médico Legal (IML) teria descartado a hipótese de acidente doméstico.

“O perito descartou acidente doméstico. Então por que essa narrativa não está sendo aprofundada?”

Para os críticos da investigação, essa contradição deveria ter sido objeto de uma apuração mais detalhada sobre outros possíveis mecanismos de trauma.

Alegações de coação e questionamentos sobre imparcialidade

Outro elemento citado envolve uma carta atribuída à mãe de Monique, na qual ela alegaria ter sido coagida durante depoimento prestado à polícia.

“Existe uma carta dizendo que ela foi coagida pelo delegado e que ele não queria que ela falasse bem do Jairinho.”

Caso confirmada, a alegação pode ampliar os questionamentos sobre a imparcialidade na coleta de depoimentos e na condução de determinadas etapas da investigação.

Coronel Jairo também criticou a manutenção da prisão preventiva dos acusados.

“Existe uma prisão ilegal, uma prisão inconstitucional, que já ultrapassou todos os limites do pressuposto de uma prisão preventiva.”

Provas desaparecidas e diligências negadas

Entre os pontos considerados mais graves pela defesa estão os pedidos de diligência que teriam sido negados pela Justiça.

Entre eles estão solicitações para:

  • detalhamento do trajeto do corpo de Henry entre o Hospital Barra D’Or e o IML
  • esclarecimentos sobre possíveis ausências de elementos essenciais nos laudos periciais
  • identificação do equipamento utilizado para determinados registros técnicos
  • envio do segundo exame de raio-X realizado durante a intubação
  • acesso aos registros dos monitores hospitalares

Segundo Coronel Jairo, parte dessas provas simplesmente desapareceu.

“Na hora da intubação tiraram um raio-X. Sumiu. Ninguém sabe mais do raio-X.”

“Cadê os monitores? O garoto chegou ao hospital, foi colocado nos monitores. O monitor sumiu.”

Para a defesa, a ausência desses elementos compromete a integridade da cadeia probatória e dificulta uma reconstrução precisa dos acontecimentos.

Reconstrução dos últimos dias de Henry

Outro pedido mencionado refere-se à tentativa de reconstruir detalhadamente a rotina de Henry antes de sua morte.

“Ele foi ao restaurante, foi ao shopping, foi ao parquinho, ao salão. Queremos saber qual foi a história desse menino.”

Segundo o Coronel, diligências destinadas a identificar possíveis episódios traumáticos anteriores também teriam sido rejeitadas.

“Negam tudo. Não é que não queremos o júri. Queremos uma narrativa digna.”

Críticas à influência externa no julgamento

Na parte mais contundente de sua manifestação, Coronel Jairo afirmou que o processo estaria sendo conduzido sob influência de narrativas externas e pressões midiáticas.

“Queremos um júri com dignidade, com todas as garantias de defesa, não baseado em narrativas falsas.”

Ele também mencionou que a análise do conteúdo extraído de smartphones revelou tensões emocionais entre familiares que, segundo ele, poderiam ajudar a compreender melhor o contexto do caso.

“Analisando o smartphone, dá para sentir o ódio e o rancor que Leniel tinha contra Monique, porque foi preterido.”

Em seguida, fez uma crítica direta à fragilidade probatória da acusação.

“Vão condenar um vereador, um médico, pai de família, sem provas. Vocês não têm provas. Só narrativas.”

O desafio de garantir um julgamento justo

Ao encerrar sua manifestação, Coronel Jairo reforçou a tese de que há uma influência indevida sobre a opinião pública e até sobre o próprio sistema de Justiça.

“Essas narrativas estão conduzindo a imprensa do Rio de Janeiro e agora o Judiciário.”

E concluiu:

“Nós queremos o júri. Mas um júri com dignidade, com todas as coisas sendo apuradas corretamente. Se isso não acontecer, nós vamos gritar.”

O caso Henry permanece como um dos episódios mais sensíveis e emblemáticos da história criminal recente do país. As novas informações extraídas por ferramentas de perícia digital como o Cellebrite reforçam a importância da tecnologia na revisão e validação de provas em processos complexos.

Ao mesmo tempo, reacendem um debate essencial sobre a necessidade de que julgamentos de grande repercussão ocorram com absoluto respeito ao contraditório, à ampla defesa e à integridade da prova técnica. Mais do que definir culpados, o Tribunal do Júri será chamado a responder a uma expectativa central da sociedade: a busca pela verdade.


Vimos que você gostou e quer compartilhar. Sem problemas, desde que cite o link da página. Lei de Direitos Autorais, (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei