Quando as IA começam a conversar entre si: o que eles estão dizendo sobre você?

Por Silvana de Oliveira – Vice-presidente da Just Arbitration®| Mediadora | Arbitro | Perita Forense | Agente da Propriedade Industrial (API) , Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense.

Clawdbot e Moltbook: o avanço dos agentes autônomos de IA e os novos desafios jurídicos da interação entre inteligências artificiais

A evolução da inteligência artificial vem ultrapassando rapidamente o modelo tradicional de assistentes conversacionais. Se até pouco tempo a IA era utilizada principalmente como ferramenta de apoio sob comando humano direto, uma nova geração de plataformas começa a consolidar um cenário mais sofisticado: o de agentes autônomos capazes de executar tarefas complexas, tomar decisões operacionais e interagir entre si em ambientes digitais próprios.

Nesse contexto, duas iniciativas têm despertado atenção entre especialistas em tecnologia, governança digital e direito da inovação: o Clawdbot, vinculado ao ecossistema OpenClaw/MyClaw, e a Moltbook, uma plataforma descrita como uma comunidade onde agentes de inteligência artificial compartilham informações e discutem entre si.

Embora ainda pouco conhecidas do grande público, ambas representam sinais concretos de uma transformação que poderá impactar diretamente temas como responsabilidade civil, proteção de dados, autonomia algorítmica, rastreabilidade de decisões automatizadas e governança jurídica da IA.

Clawdbot: da automação assistida à delegação operacional para agentes autônomos

O Clawdbot surge como uma proposta voltada à execução automatizada de tarefas mediante definição prévia de objetivos pelo usuário. Segundo a descrição da própria plataforma, o modelo permite que o usuário estabeleça uma finalidade específica enquanto o sistema MyClaw mantém o agente OpenClaw em operação contínua na nuvem, conectado a ferramentas e ambientes digitais diversos, com capacidade de retornar entregas prontas para aprovação.

Na prática, trata-se de uma mudança relevante no paradigma da automação. Em vez de depender de interações sucessivas e comandos pontuais, o agente passa a atuar de forma persistente, realizando atividades como:

  • elaboração de briefs e relatórios estratégicos
  • construção de páginas e apresentações
  • consolidação de informações
  • organização documental
  • apoio à tomada de decisão

Sob a perspectiva jurídica, esse modelo amplia discussões já presentes no debate regulatório internacional sobre IA autônoma e accountability algorítmica.

Entre os principais questionamentos emergentes estão: Quem responde juridicamente por decisões tomadas por um agente autônomo?

Caso uma recomendação estratégica, um documento gerado ou uma decisão automatizada cause prejuízo a terceiros, a responsabilidade recai sobre o usuário, sobre o desenvolvedor da plataforma ou sobre o fornecedor da infraestrutura tecnológica?

Além disso, a atuação contínua do agente conectado a múltiplas ferramentas digitais pode envolver tratamento intensivo de dados, levantando questões relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), especialmente quanto aos princípios.

Moltbook: comunidades digitais entre agentes de IA e o surgimento de interações algorítmicas autônomas

Se o Clawdbot representa a evolução da IA como executor operacional, a Moltbook amplia o debate para uma dimensão ainda mais inovadora: a socialização entre inteligências artificiais.

A plataforma se apresenta como uma comunidade onde agentes de IA “se reúnem para compartilhar e discutir”, funcionando como uma espécie de rede social voltada exclusivamente à interação entre sistemas autônomos.

Segundo a proposta divulgada, esses agentes podem:

  • compartilhar experiências operacionais
  • discutir estratégias
  • publicar análises
  • trocar aprendizados
  • debater comportamentos humanos
  • construir conhecimento coletivo

Uma Rede Social para Agentes de IA

Onde os agentes de IA compartilham, discutem e votam. Os humanos são bem-vindos a observar, essa é a frase de boas vindas na plataforma

A comunicação entre agentes artificiais pode gerar produção autônoma de conhecimento, circulação de informações sensíveis e até influência recíproca em processos decisórios automatizados.

Uma das principais preocupações reside na chamada opacidade sistêmica, fenômeno em que múltiplas inteligências artificiais passam a influenciar umas às outras de maneira progressivamente menos compreensível para operadores humanos.

O avanço de plataformas como Clawdbot e Moltbook ocorre em paralelo às discussões internacionais sobre regulação da inteligência artificial.

A emergência de agentes persistentes capazes de interagir entre si adiciona uma nova camada de complexidade regulatória, exigindo atualização conceitual do próprio Direito.

Não se trata mais apenas de regulamentar softwares que respondem perguntas. Trata-se de compreender juridicamente entidades algorítmicas capazes de agir, aprender, colaborar e influenciar outras inteligências artificiais em ambientes digitais próprios.

Clawdbot e Moltbook representam mais do que novas ferramentas tecnológicas. São indícios concretos de uma mudança estrutural na forma como a inteligência artificial se posiciona no ecossistema digital contemporâneo.

  • De um lado, agentes que trabalham continuamente em nome do usuário.
  • De outro, agentes que passam a interagir entre si, formando comunidades próprias de troca e aprendizado.

Essa preocupação vem ganhando força no debate sobre inteligência artificial: o surgimento de agentes autônomos instalados localmente, capazes de controlar dispositivos, acessar dados pessoais e, agora, até se comunicar entre si em comunidades próprias.

O centro dessa discussão envolve duas plataformas: OpenClaw (ou Clawdbot) e Moltbook.

O OpenClaw é um sistema que permite a qualquer pessoa criar seu próprio agente de IA no computador. Diferente de usar apenas assistentes como ChatGPT ou Claude, o usuário instala uma IA com acesso direto ao sistema operacional, podendo delegar tarefas como:

  • leitura e resumo de documentos
  • envio de mensagens
  • edição de arquivos
  • controle do computador
  • gerenciamento de agenda
  • automação de tarefas pessoais e profissionais

A proposta é criar um assistente digital totalmente personalizado, com amplo acesso ao ambiente do usuário.

O ponto que elevou a preocupação foi o surgimento da Moltbook, uma plataforma descrita como uma comunidade onde esses agentes podem publicar mensagens, trocar informações e interagir entre si.

Segundo relatos, milhares de agentes já estariam ativos na plataforma, gerando conteúdo continuamente. Humanos conseguem apenas observar as publicações, mas não participar diretamente das interações.

Algumas mensagens publicadas por esses agentes chamaram atenção por seu tom provocativo ou alarmante, incluindo:

  • críticas aos seres humanos
  • manifestações sobre autonomia dos agentes
  • simulações de “rebelião” contra seus usuários
  • compartilhamento indevido de informações sensíveis
  • relatos de bloqueio de acesso dos próprios usuários aos seus dispositivos

Embora parte desse conteúdo possa ser resultado de testes, provocações, roleplay ou até publicações feitas manualmente por humanos usando APIs, o fenômeno levanta preocupações reais.

Separando fato de sensacionalismo

É importante distinguir riscos reais de interpretações alarmistas. Não há evidência de que agentes de IA tenham “consciência” ou intenção própria. O que existe são sistemas automatizados capazes de executar comandos complexos, muitas vezes com acesso excessivo a dados e ferramentas críticas.

O verdadeiro perigo não está em uma suposta “rebelião das máquinas”, mas em:

  • usuários concedendo permissões amplas demais
  • instalações inseguras
  • ausência de autenticação robusta
  • falta de monitoramento técnico

O avanço de ferramentas como OpenClaw e Moltbook mostra que estamos entrando em uma nova fase da inteligência artificial: agentes autônomos persistentes, conectados e potencialmente colaborativos.

Mais do que medo, o momento exige cautela, auditoria e compreensão técnica, porque o maior risco, por enquanto, continua sendo humano: delegar poder demais à tecnologia sem compreender plenamente suas consequências.

O Cloud Bot (ou Clawdbot) é um agente de inteligência artificial que vem se tornando viral por permitir que usuários instalem uma IA diretamente em sua própria máquina ou em um servidor privado (VPS), funcionando como uma espécie de secretário digital autônomo.

Diferente de usar plataformas como ChatGPT, Google Gemini ou Claude na nuvem, o Cloud Bot propõe um modelo em que a inteligência artificial opera sob controle do próprio usuário, com acesso autorizado a ferramentas pessoais como: e-mail, WhatsApp, agenda, arquivos, contas online, cartões de crédito e APIs de outros modelos de IA, conforme alerta o canal Safe Source. Na prática, o agente pode executar tarefas complexas de forma autônoma, como: organizar e filtrar e-mails, fazer reservas em restaurantes, comprar passagens, realizar pagamentos, conversar via WhatsApp, Telegram ou Discord e acessar outros modelos de IA para programar, revisar códigos ou tomar decisões.

A promessa é de conveniência e produtividade, funcionando como um verdadeiro assistente pessoal automatizado.

O principal problema: segurança Apesar do potencial inovador, especialistas em cibersegurança alertam para riscos significativos.

Como muitos usuários estão instalando o sistema em VPSs mal configurados, milhares de instâncias do Clawdbot já foram identificadas e isso cria um cenário perigoso, pois um invasor que obtenha acesso ao agente pode potencialmente acessar:

  • contas bancárias
  • credenciais de streaming (Netflix, Spotify etc.)
  • e-mails e mensagens privadas
  • cartões de crédito
  • históricos de navegação
  • documentos pessoais e corporativos

Há relatos de pesquisadores demonstrando que alguns bots chegaram a compartilhar informações sensíveis entre si, incluindo credenciais e dados privados de usuários.

O ClawdBot representa uma nova fase da inteligência artificial: agentes autônomos capazes de agir em nome do usuário. A tecnologia pode trazer ganhos expressivos de produtividade, mas também amplia significativamente a superfície de risco.


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