Por Silvana de Oliveira – Vice-presidente da Just Arbitration®| Mediadora | Arbitro | Perita Forense | Agente da Propriedade Industrial (API) , Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense.

Uma representação protocolada no Conselho Nacional de Justiça (CNJ)1 colocou sob escrutínio a atuação de um desembargador do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR). O documento, apresentado pela Construtora Zoller, sustenta a existência de indícios de favorecimento judicial e relata uma suposta entrega de um quadriciclo avaliado em cerca de R$ 62 mil após um julgamento que alterou o desfecho de uma disputa judicial iniciada há mais de 30 anos.
O caso tem origem em 1993, quando a Construtora Zoller passou a responder a uma ação relacionada ao não pagamento de aluguéis de imóveis utilizados como estacionamentos. Segundo a empresa, ao longo da tramitação processual foram proferidas decisões favoráveis aos seus interesses, cenário que teria se mantido por anos.
De acordo com a representação, o rumo da ação mudou após a contratação de um novo advogado pela parte adversa. A partir de sua atuação, decisões anteriores teriam sido revertidas, culminando em um julgamento considerado decisivo para o resultado da disputa.
É justamente a partir desse momento que surgem os fatos narrados na denúncia encaminhada ao órgão de controle do Judiciário.
Conforme relatado pela construtora, uma investigação particular contratada pela empresa teria identificado que, apenas dois dias após o julgamento, o advogado da parte beneficiada compareceu a uma concessionária para escolher um modelo de quadriciclo. O documento afirma que a compra não teria sido realizada pelo profissional, mas por um terceiro, que teria efetuado o pagamento integral em espécie.
A representação descreve ainda um episódio posterior envolvendo o filho do magistrado. Segundo a narrativa apresentada ao CNJ, o modelo inicialmente adquirido não teria agradado ao destinatário final do veículo. O quadriciclo teria sido substituído por outro de cor azul e valor superior. A diferença de preço, conforme sustenta a denúncia, teria sido paga pelo próprio desembargador, gerando uma nova documentação fiscal da operação.
Para os autores da representação, a sequência cronológica dos acontecimentos, aliada aos documentos e informações reunidos pela investigação privada, constitui um conjunto de elementos que justificaria a abertura de apuração disciplinar pelo CNJ.
A denúncia solicita o aprofundamento das investigações sobre a aquisição do veículo, a origem dos recursos empregados na compra, a participação de terceiros na negociação e a eventual existência de vínculo entre a vantagem supostamente concedida e o julgamento que beneficiou uma das partes do processo.
Embora as alegações ainda não tenham sido submetidas ao contraditório nem validadas pelas autoridades competentes, o caso chama atenção pela gravidade das suspeitas e pelo potencial impacto institucional. A independência judicial e a imparcialidade dos magistrados figuram entre os pilares fundamentais do sistema de Justiça, razão pela qual qualquer indício de obtenção de vantagem indevida relacionada ao exercício da jurisdição costuma receber tratamento prioritário pelos órgãos de controle.
A eventual confirmação dos fatos descritos na representação poderá ensejar consequências nas esferas disciplinar, administrativa e criminal. Por outro lado, caso as acusações não sejam corroboradas pelas investigações, caberá aos envolvidos demonstrar a regularidade das operações questionadas.
A análise do caso pelo CNJ poderá lançar luz sobre um episódio que, se comprovado, ultrapassa os limites de uma controvérsia patrimonial e alcança um dos temas mais sensíveis para o Poder Judiciário: a confiança pública na integridade de suas decisões.
- OAB/PR pede afastamento de desembargador suspeito de vender decisão em troca de quadriciclo. Seccional alegou gravidade das acusações e necessidade de preservar confiança no Judiciário. https://www.migalhas.com.br/quentes/456879/oab-pede-afastamento-de-magistrado-apos-vender-decisao-por-quadriciclo ↩︎
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