Por Silvana de Oliveira – Vice-presidente da Just Arbitration®| Mediadora | Arbitro | Perita Forense | Agente da Propriedade Industrial (API) , Especialista em Provas Digitais e Investigação Forense.

A recente decisão do ministro Gilmar Mendes, no julgamento do RHC 269.3681 pelo Supremo Tribunal Federal, reacendeu um debate central no processo penal contemporâneo: até onde o Estado pode avançar na busca pela prova sem violar direitos fundamentais?
O caso envolveu a anulação de uma ação penal instaurada contra um médico acusado da prática dos crimes de aborto provocado por terceiro, falsidade ideológica e corrupção passiva. A investigação teve origem em denúncia anônima e evoluiu a partir de dois elementos considerados ilícitos pelo STF: o acesso policial indevido à ficha de triagem hospitalar da paciente e a obtenção de uma confissão informal sem observância das garantias constitucionais mínimas.
A decisão representa mais do que uma simples invalidação probatória. Ela consolida uma compreensão constitucional sobre proteção de dados sensíveis, sigilo profissional médico e limites da persecução penal diante da dignidade humana.
A contaminação estrutural da prova penal por vícios originários capazes de comprometer toda a cadeia de produção probatória. Não se trata apenas de uma irregularidade formal, mas de uma enfermidade jurídica que afeta a legitimidade da atividade persecutória estatal.
No caso analisado, a investigação nasceu de uma invasão indevida ao núcleo de privacidade da paciente. Policiais tiveram acesso à ficha de triagem médica sem autorização judicial e, posteriormente, realizaram questionamentos informais dentro do ambiente hospitalar, obtendo declaração autoincriminatória sem advertência ao direito ao silêncio ou assistência jurídica.
A partir desse cenário, o STF reconheceu que a persecução penal foi construída sobre bases ilícitas desde a origem, tornando inevitável a aplicação da teoria dos frutos da árvore envenenada.
O sigilo médico como garantia constitucional
O prontuário médico não constitui mero documento administrativo hospitalar. Trata-se de instrumento protegido por múltiplas camadas normativas, envolvendo:
- direito à intimidade; vida privada; dignidade da pessoa humana; sigilo profissional; autodeterminação informativa; proteção de dados pessoais sensíveis.
Informações relacionadas à saúde pertencem à esfera mais restrita da personalidade humana. Seu acesso não pode ocorrer por curiosidade investigativa ou conveniência operacional.
A decisão do STF reafirma entendimento já consolidado de que autoridades policiais e membros do Ministério Público não podem acessar prontuários, fichas médicas ou dados hospitalares sem autorização judicial específica, salvo hipóteses legais excepcionalíssimas.
O ingresso informal de agentes estatais em informações médicas protegidas rompe não apenas o sigilo profissional, mas também a confiança institucional necessária à relação médico-paciente.
A dimensão constitucional da LGPD no processo penal
A decisão também dialoga diretamente com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, especialmente no tratamento de dados pessoais sensíveis.
Dados relacionados à saúde encontram proteção reforçada na legislação brasileira justamente por revelarem aspectos íntimos da existência humana. A utilização dessas informações exige:
- finalidade legítima; adequação; necessidade; base legal válida; observância do devido processo legal.
No caso concreto, não havia consentimento da paciente, autorização judicial nem hipótese legal que legitimasse o compartilhamento dos dados médicos com a autoridade policial.
A consequência jurídica natural foi o reconhecimento do tratamento ilícito dos dados pessoais.
A decisão do STF demonstra que a LGPD não se limita ao âmbito empresarial ou consumerista. Sua incidência alcança diretamente a atividade estatal investigativa, impondo freios constitucionais à obtenção e utilização de informações pessoais no processo penal.
O interrogatório informal e a violação ao direito ao silêncio
Outro ponto central foi a nulidade da chamada “confissão informal”.
Segundo os autos, a paciente foi questionada dentro do hospital por agentes policiais e admitiu a interrupção da gravidez. O problema, porém, reside na ausência de garantias fundamentais mínimas.
Não houve demonstração de que a investigada:
- foi informada do direito ao silêncio;
- recebeu advertência sobre a não autoincriminação;
- teve acesso à defesa técnica;
- compreendeu as consequências jurídicas de suas declarações.
O ministro Gilmar Mendes invocou o paradigma do caso Miranda v. Arizona para reforçar que a ausência de advertências constitucionais torna ilícita a prova obtida, sobretudo em ambiente vulnerável e potencialmente intimidatório como um hospital.
A decisão reforça que a informalidade não pode servir como mecanismo de flexibilização de direitos fundamentais. Quando há intenção investigativa, há incidência plena das garantias constitucionais.
Cadeia de custódia da legalidade
Embora o caso não trate diretamente da cadeia de custódia em sentido técnico-pericial, a decisão revela uma dimensão mais ampla: a necessidade de preservação da cadeia de custódia da legalidade.
Não basta preservar integridade física ou autenticidade documental da prova. É indispensável que sua obtenção respeite parâmetros constitucionais desde a origem.
Uma prova tecnicamente íntegra pode ser juridicamente imprestável quando nasce de violação de direitos fundamentais.
Nesse contexto, o controle judicial prévio assume papel essencial para evitar:
- pescarias probatórias;
- acessos arbitrários a dados sensíveis;
- invasões informacionais;
- constrangimentos investigativos;
- ampliação desproporcional do poder estatal.
A importância da decisão para o processo penal contemporâneo
A decisão proferida no RHC 269.368 possui relevância que transcende o caso concreto.
Ela estabelece importantes diretrizes para:
- proteção de dados médicos;
- limites da atividade policial;
- validade da prova digital e documental;
- incidência da LGPD na persecução penal;
- fortalecimento do direito à não autoincriminação.
Em tempos de expansão tecnológica e crescente circulação de informações sensíveis, o processo penal não pode transformar hospitais, plataformas digitais ou bancos de dados privados em ambientes de acesso irrestrito do Estado.
O combate à criminalidade não autoriza supressão de garantias constitucionais.
Ao reconhecer a ilicitude das provas e determinar o desentranhamento de todos os elementos derivados, o STF reafirmou que a eficiência investigativa possui limites jurídicos intransponíveis.
Mais do que invalidar provas, a Corte reafirmou um princípio essencial do Estado Democrático de Direito: nenhuma persecução penal legítima pode nascer da violação da dignidade humana.
- Gilmar anula ação penal baseada em acesso ilegal a prontuário médico https://www.conjur.com.br/2026-mai-05/gilmar-anula-acao-penal-baseada-em-acesso-ilegal-a-prontuario-medico/ ↩︎
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